Redes de Fast-food disputam para colocar o preço mais baixo

Uma multidão se forma no shopping Itaquera diariamente ao meio-dia. Nesse horário, é impossível cruzar a praça de alimentação sem esbarrar na fila do McDonald”s. Entre as 20 opções de restaurantes, a rede americana é a mais popular. A recente política de preços ajuda a explicar o movimento: pela primeira vez, a cadeia colocou seu líder de vendas, o Big Mac, em promoção. Desde março, o sanduíche sai por R$ 6, uma redução de 30% em relação ao preço original.

A ação do McDonald”s faz parte de um movimento maior. Há cerca de um mês, as principais redes de fast-food vêm fazendo promoções agressivas. O Subway reduziu quase pela metade o preço do sanduíche de frango, em seu movimento mais ambicioso desde que chegou ao Brasil. O Burger King fez o mesmo com quatro sanduíches. É a maior oferta já realizada pela rede – e outra, mais ousada, ainda deve ser lançada. O Bob”s cortou à metade o preço do Big Bob, seu carro-chefe.

“É uma guerra mesmo”, diz Roberta Michelim, gerente nacional do Subway. “Nas ruas, muitas vezes, encontramos as propagandas do Subway ao lado das placas do McDonald”s.” A intensidade das promoções foi captada pelos índices de inflação. Segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a categoria “lanche” teve retração de 1,76% entre o fim de março e o início de abril na cidade de São Paulo, maior mercado do País.

Para essas redes, a prática de descontos no período pós-carnaval é usual. Mas desta vez é diferente, embora nem todas admitam: não só a agressividade é maior, como as reduções acontecem em meio à alta generalizada nos preços de matéria-prima. Os alimentos têm sido o grande vilão da inflação. Segundo a Fipe, os preços da categoria alimentos subiram 8,58% nos últimos 12 meses, enquanto a inflação geral foi de 6,06%. Só a carne bovina aumentou quase 25%. “Como os alimentos continuam em alta, a queda dos preços dos lanches só pode ser justificada por práticas comerciais dessas redes para não perder ou até ganhar mercado”, diz Antonio Evaldo Comune, coordenador do IPC Fipe.

Nesse setor, ninguém mede com precisão a participação de mercado dos grandes competidores. Mas não há dúvidas de que as principais redes elegeram este momento para ganhar espaço. “Entramos com um apelo forte para a classe C. Queremos atingir um novo público, aumentar a frequência de consumo e aproveitar o movimento maior para vender outros produtos, como sorvetes”, diz Marcello Farrel, diretor da marca Bob”s.

Sacrifícios. O crescimento acelerado em um momento de alta dos alimentos não vem, porém, sem sacrifícios. As vendas do Subway bateram recorde, com aumento de 60% desde março, mas as margens de lucro nos sanduíches de frango foram reduzidas pela metade. Além disso, os franqueados hesitaram em aceitar a redução abrupta de preço. “Cerca de 10% dos franqueados reclamaram no início, mas sabíamos, por pesquisas, que faltava uma campanha como essa”, diz Roberta. “Agora, eles pararam de reclamar e alguns elogiam.”

Para oferecer preços mais baixos, algumas redes precisaram entrar em duros processos de renegociação com fornecedores. Segundo o Estado apurou, o McDonald”s, por exemplo, ameaçou deixar de comprar parte de seu fornecimento de hambúrgueres do Marfrig no fim do ano passado como forma de pressionar por preços mais baixos. Apesar do ultimato, a cadeia de fast-food acabou não recorrendo aos concorrentes.

O Minerva, frigorífico que atende redes de fast-food, aceitou fazer um esforço. “Como temos uma parceria de longo prazo com esses clientes, não transferimos alguns aumentos da inflação”, diz Fernando Galletti de Queiroz, presidente do Minerva. “Sempre tem uma parte de investimento (nesse tipo de negociação). O volume maior de vendas não compensou completamente o aumento que não repassamos”

A atual disputa entre as cadeias é mais um sinal da euforia com a expansão do consumo no Brasil. Na semana passada, a Arcos Dorados (empresa que administra a marca McDonald”s na América Latina), captou US$ 1, 25 bilhão em seu IPO em Nova York e vai investir parte desse dinheiro na abertura e reforma de lojas no Brasil. A Martin-Brower, empresa de logística que atende McDonald”s, Bob”s e alguns restaurantes do Subway, alugou dois novos armazéns, contratou 130 pessoas e aumentou sua frota em 50 caminhões. Tudo para atender ao recente aumento de vendas. “Criou-se uma oportunidade”, diz Tupanangyr Gomes, presidente da Martin-Brower. “Em algumas lojas, triplicamos a frequência de reabastecimento.”

Ainda é cedo para saber se os ganhos no futuro vão compensar as perdas nas margens de hoje. “A briga não leva a lugar algum. Essa não é a hora de fazer guerra de preços”, diz um grande fornecedor. Mas as cadeias de fast-food enxergam vantagens de longo prazo na atual política.

No caso do Habib”s, menos de 10% da receita vêm dos sanduíches. Mas a disputa entre os concorrentes fez com que a rede aumentasse suas apostas no produto. “Não podíamos ficar de fora dessa competição”, diz Alberto Saraiva, fundador da empresa. No fim do mês, o Bib”s Chicken Salad terá seu preço reduzido quase à metade.

Para o Habib”s, essa é uma oportunidade de tornar-se mais conhecido em uma categoria em que não é referência. “Como esse não é nosso principal produto, podemos suportar os descontos por muito tempo”, explica Saraiva. Outros itens também entrarão em promoção. E, para que ninguém tenha dúvidas de que a intenção é entrar de fato na briga, o slogan da campanha é “pequeníssimos preços” – uma provocação ao “pequenos preços” do McDonald”s./

Por Melina Costa – O Estado de S.Paulo
COLABORARAM CÁTIA LUZ E LUIZ GERBELLI

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