Elas são as donas

Já há mais mulheres empreendedoras no Brasil do que homens. No comando de suas empresas, elas podem mudar o país

O número de brasileiras à frente do próprio negócio superou o de homens pela primeira vez na história. Elas já são 53% dos profissionais que decidem juntar as economias e tentar a sorte em carreira solo – um universo de 18,8 milhões de pessoas no Brasil. As mulheres já vinham ensaiando a decolagem há quase uma década. Desde 2001, segundo a pesquisa Global Enterpreneurship Monitor, realizada no país pelo Sebrae e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade, o número de empreendedoras mostra tendência clara de crescimento, enquanto o de homens empresários está estagnado. Em 2009, ano do levantamento mais recente, elas deram a virada. “As mulheres já são maioria nas empresas e nas universidades. É natural que comecem a despontar como empresárias”, afirma Enio Pinto, gerente de Inovação do Sebrae Nacional.

   Reprodução

 

A ascensão das pequenas empreendedoras está mostrando ao mercado que as mulheres têm perfil diferente na hora de tocar o próprio negócio. A experiência de especialistas como Enio sugere que elas são mais cuidadosas. Analisam e planejam melhor as oportunidades antes de se lançar na empreitada. E são menos imediatistas: têm mais persistência para esperar que o investimento comece a gerar lucro.

As novas empresárias também foram espertas ao tirar proveito do bom momento da economia brasileira nos últimos anos. Mulheres da classe C perceberam o aumento da renda entre as amigas e suas famílias e enxergaram a oportunidade de explorar a sede de consumo da nova classe média brasileira. Segundo um estudo do IBGE e do instituto de pesquisa Target Group Index, pelo menos 50% da população, algo em torno de 95 milhões de pessoas, ganhou poder de compra nos últimos anos. As novas empreendedoras começam vendendo doces ou cosméticos e logo percebem que trabalhar por conta própria pode ser mais do que um bico para complementar a renda. Geralmente, escolhem investir em um negócio no ramo de beleza ou alimentação.

São empresárias como a paulista Cíntia Lima da Silva, de 27 anos, que resolveu abrir o próprio negócio depois de perder o emprego de vendedora. Cíntia aproveitou a profissão do marido, que é cabeleireiro, e abriu um salão de beleza na cidade de Carapicuíba, região metropolitana de São Paulo. Eles investiram em tratamentos para cabelos afro. “Cerca de 60% das mulheres do bairro são afrodescendentes. Há uma grande demanda por alisamentos s e procedimentos exclusivos para cabelos crespos e ninguém explorava”, diz Cíntia. “Já temos mais de 200 clientes.”

A conclusão mais surpreendente vinda da experiência dessa nova safra de empreendedoras é que as empresas tocadas por mulheres são as que mais trazem efeitos positivos para a sociedade. A consultoria Global Markets fez um levantamento há dois anos e descobriu que as mulheres costumam reinvestir na sociedade a renda gerada pela empresa. Gastam com a educação dos filhos e a saúde deles. Já os homens, sugere a pesquisa, gastam consigo mesmos, em roupas, carros e lazer, e no próprio negócio. O estudo sugere que um número maior de mulheres empreendedoras aumentaria o crescimento do Produto Interno Bruno (PIB) em 0,7% ao ano. Até 2030, a renda per capita cresceria 9,1%. “Quando as mulheres investem na qualificação dos filhos, o país ganha profissionais bem formados, que se colocarão no mercado de trabalho, gerando consumo e movimentando a economia”, diz Tales Andreassi, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV).

As perspectivas animadoras sobre os desdobramentos sociais e econômicos do empreendedorismo feminino já despertaram a atenção de investidores. O banco de investimentos Goldman Sachs, apoiado pela FGV e pela IE Business School, lançou em 2008 o programa 10.000 Mulheres. O projeto prevê o investimento de US$ 100 milhões em cinco anos para estimular novas empreendedoras em nações emergentes, como Brasil, Egito, Índia e China. A FGV, em São Paulo, e a Fundação Dom Cabral, em Belo Horizonte, são responsáveis pelos cursos gratuitos, que ensinam a elaborar um plano de negócios, montar a estratégia de marketing e cuidar das finanças da empresa. A falta de capacitação não faz distinção de gênero.

Depois de a paranaense Geni Josefa dos Santos trabalhar muito no bar que comprara do ex-marido e só acumular dívidas, ela decidiu que precisava aprender a administrar profissionalmente seu negócio. No curso de capacitação descobriu que precisava definir que tipo de cliente traria mais retorno. “Parei de vender prato feito e pinga e criei um cardápio caprichado. Atraí mais clientes, e o dinheiro começou a entrar”, diz Geni. Hoje, aos 41 anos, ela serve 100 refeições diárias, comprou um carro zero-quilômetro, duas motos para entregas e tem seis funcionários, todos registrados. “Passei por apuros ao insistir em ter meu próprio negócio, mas tive tempo para acompanhar o crescimento de meus filhos”, diz Geni. “Sinto-me feliz e poderosa.”

Fonte: Época

 

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