Como os empregados justificam suas fraudes?

Com desculpas do tipo “Todo mundo faz isso” ou “Sou mal pago, mesmo”. A corrupção é uma erva daninha que pode destruir uma empresa rapidamente. Tudo começa com as chamadas “comissões”, diz o premiado professor Blake AshforthA corrupção é um mal que cria rapidamente raízes nas empresas. Funcionários tentam esquecer que estão cometendo atos ilícitos e passam a acreditar que seu comportamento é normal. Uma das principais explicações de como funciona esse processo — e como evitá-lo — está em um premiado artigo, “Business as usual: The acceptance and perpetuation of corruption in organizations”, publicado na Academy of Management Executive pelos pesquisadores Vikas Anand, Blake Ashforth e Mahendra Joshi.

Professor da Arizona State University, Ashforth é um estudioso das disfunções organizacionais. Ph.D. pela Universidade de Toronto e autor de mais de 80 artigos acadêmicos em importantes publicações internacionais, ele detalha, nesta entrevista a Pequenas Empresas & Grandes Negócios, como as fraudes podem se tornar corriqueiras — e a melhor maneira de prevenir que isso aconteça com o seu negócio.

Funcionários que se envolvem em fraudes têm completa noção de estar cometendo um crime?
Sim e não. Inicialmente, eles costumam estar cientes de que suas ações estão erradas, mas as pessoas são incrivelmente versáteis em criar desculpas, mesmo para o mais descarado ato de corrupção. Elas encontram razões para se convencer de que o que estão praticando não é, na verdade, tão ruim, e, na realidade, é normal ou pode até ser positivo. Então, após um tempo, acham natural esse tipo de comportamento e não enxergam isso como particularmente errado. Entretanto, os fraudadores permanecem conscientes de que o mundo exterior desaprovará aquele comportamento e procuram se manter quietos sobre o assunto.

Quais são as desculpas que os empregados usam para justificar seus atos fraudulentos?
Há muitos tipos de discursos: “Todo mundo faz isso”; “é a maneira como o mundo realmente trabalha”; “sempre foi feito assim (então, quem sou eu para mudar?)”; “nossa companhia fecharia se eu não fizesse isso”; “meu chefe me disse para fazê-lo”; “eles (as vítimas) merecem — chegou a hora da vingança”; “É meu direito fazê-lo (a empresa em que trabalho não me paga o bastante)”. Essas racionalizações são usadas para a pessoa se sentir ok sobre seu comportamento corrupto e explicar esse deslize aos outros, se for necessário.

O senhor costuma dizer que a linguagem é importante no desenvolvimento dessas desculpas. Como assim?
As pessoas usam a linguagem para suavizar os fatos duros da corrupção e fazê-los mais aceitáveis. Então, um suborno de um comprador é chamado de “taxa” ou “comissão”. Um exemplo, que não é de fraude corporativa, mas que mostra como a linguagem eufemística pode ser levada ao limite, é o dos médicos nazistas que trabalharam no campo de concentração de Auschwitz. Ao selecionar os prisioneiros que iriam para campos de concentração, eles jamais usavam a palavra “morte”; diziam que era “um procedimento de transporte”. Os doentes eram assassinados antes dos demais com injeções de fenol e os médicos denominavam esse ato de “medicina preventiva”.

“As pessoas usam a linguagem para suavizar os fatos e fazer com que pareçam mais aceitáveis. Assim, fraude pode virar taxa ou comissão. Essa mesma tática foi muito utilizada pelos nazistas em campos de concentração na Segunda Guerra”

Quais são as táticas de socialização para convencer pessoas na mesma empresa a tomar parte ou serem coniventes com atos antiéticos?
Um método comum é exercer pressões sutis para comprometer alguém em um comportamento antiético brando. Um novo funcionário tenta entender o comportamento dos colegas e acaba se apoiando nas desculpas que os veteranos oferecem (por exemplo, “todo mundo faz” ou “isso não vai prejudicar ninguém”). À medida que o novato aceita o comportamento, os mais experientes induzem-no a se envolver em atos piores. Pouco a pouco, ele vai se tornando completamente corrupto e mantém um conjunto de desculpas prontas. O comportamento se torna autoperpetuante. E muitos aderem ao processo simplesmente para ficar bem com os demais integrantes do grupo. Podem até ver esse tipo de ação como um jogo (“posso vencer?”).

É possível prevenir esse tipo de comportamento e evitar atos fraudulentos?
Prevenir é muito mais fácil que tentar acabar com a corrupção depois que ela está enraizada na cultura da empresa. É necessária uma evidente e forte referência de comportamento por parte dos principais gestores, um treinamento eficaz em ética e uma pessoa de confiança que possa ser contatada confidencialmente se a corrupção for descoberta. Transparência e cobrança não podem se dar apenas em relação aos resultados, mas também ao comportamento individual. É preciso estabelecer recompensas claras para o comportamento ético e punição para os atos não éticos.

Em um sentido mais amplo, corrupção empresarial tem a ver com a cultura de um país como um todo?
Racionalizações não são nada mais que crenças. E crenças são uma parte importante da cultura. Companhias têm culturas, nações têm culturas, religiões têm culturas, e mesmo famílias têm culturas. Como as pessoas não são perfeitas, elas procuram arquitetar desculpas para se sentir melhor sobre seu comportamento. Mas essas racionalizações parecem servir apenas aos próprios interesses e geralmente parecem ridículas para quem está de fora — porque, de fato, são pensamentos egoístas. A melhor saída, então, é alimentar um conjunto de crenças opostas e práticas que coloquem os pensamentos nocivos sob os holofotes — e, ao mesmo tempo, evidenciem a importância da honestidade, da correta prestação de contas e da transparência. Há, portanto, esperança para todos os países, mesmo aqueles com altos níveis de corrupção: é uma questão de força de vontade. Infelizmente, os indivíduos mais poderosos são aqueles com as maiores oportunidades para a corrupção, e por isso mudanças de verdade frequentemente exigem uma nova e comprometida liderança.

BLAKE ASHFORTH
Quem é: Professor da Arizona State University, foi um dos autores do artigo “Business as usual: The acceptance and perpetuation of corruption in organizations”
O que faz: Ph.D. pela University of Toronto, é um estudioso das disfunções organizacionais. Ganhou outros prêmios, como o de professor excepcional em programas de doutorado da Carey School of Business, escola de negócios da Universidade do Arizona

Por Adriana Wilner

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