Campus Party 2011: apagões, Al Gore, furtos e fé na ‘santa da banda larga’

A quarta edição da Campus Party Brasil, encerrada neste domingo (23), teve como foco o tema sustentabilidade. Para colocar essa proposta em prática, o evento realizado durante uma semana em São Paulo teve debates e oficinas sobre o assunto, além de palestras de nomes de peso, como Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA e vencedor do Nobel da Paz em 2007.

Willians Valente/UOL

A quarta edição da Campus Party Brasil, encerrada neste domingo (23), teve como foco o tema sustentabilidade. Para colocar essa proposta em prática, o evento realizado durante uma semana em São Paulo teve debates e oficinas sobre o assunto, além de palestras de nomes de peso, como Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA e vencedor do Nobel da Paz em 2007. O principal destaque da Campus Party 2011, no entanto, foi algo que os organizadores não planejaram: as quedas de luz no Centro de Exposições Imigrantes, onde cerca de 4.500 pessoas passaram a semana inteira acampadas. No total, segundo dados oficiais, o público chegou a 6.800 inscritos e bateu recorde.

Os campuseiros ficaram no escuro pelo menos três vezes: na madrugada de segunda (17) para terça-feira (18), no início da noite de terça — quando a energia demorou mais de uma hora para voltar e a conexão ultraveloz de 10 Gbps (gigabits por segundo) caiu – e por cerca de cinco minutos na tarde de sexta-feira (21).

Por conta da duração do problema e das controvérsias entre o motivo do apagão (o diretor Mario Teza falou que um acidente havia causado a falta de luz, enquanto a organização culpou a chuva), a tensão maior no Centro de Exposições Imigrantes foi registrada no início da noite de terça. Indignados, os campuseiros que pagaram R$ 150 de inscrição e R$ 20 para acampar acharam uma forma bem humorada de reivindicar o direito à luz e à conexão rápida: escreveram frases de protesto na tela de seus notebooks. Também apelaram para a “santa da banda larga”, imagem religiosa de uma ação de marketing, e fizeram uma procissão até o estande da Telefônica, patrocinador oficial do evento. Os mais empolgados chegaram a ajoelhar – com fé ou palhaçada, a luz e a internet voltaram pouco depois.

Na quarta-feira (19), a organização divulgou em seu blog oficial que dez geradores estavam preparados, em caso de nova queda de luz por causa de temporal – o apagão voltou a acontecer na sexta, mas durou apenas cinco minutos. As fortes chuvas em São Paulo complicaram a vida dos campuseiros, que tiveram de proteger seus computadores com guarda-chuvas dentro do próprio pavilhão. Isso porque o local era coberto, mas suas paredes não chegavam até o teto, permitindo assim que o vento empurrasse a água para dentro do centro de exposições.

O campuseiro Tiago Cabral, 24, disse que teve o notebook furtado na primeira noite do acampamento nerd e outros participantes relataram o sumiço de mochilas e acessórios menores

Fala que eu te escuto

Na edição da sustentabilidade da Campus Party, um dos principais destaques foi a presença do hoje ativista ambiental Al Gore. Em sua palestra em parceria com Tim Berners-Lee, fundador do WWW (World Wide Web), os dois reforçaram que os usuários da internet devem lutar para que a rede seja um espaço livre e para que tomem cuidado com as tentativas de governos e grandes corporações de diminuírem a liberdade dos internautas. “Defendam a internet, não deixem que ela seja controlada. Protestem, reclamem e questionem os governos, mas não deixe que isso aconteça”, disse o ex-vice-presidente dos Estados Unidos.

Outra palestra bastante aguardada foi a de Steve Wozniak, cofundador da Apple. Ele disse que ainda não há concorrentes à altura do iPad e que, mesmo os dispositivos com o sistema Android não são tão bons quanto o tablet da Apple. Surpreendentemente, Wozniak declarou ser contrário a sistemas fechados, como a iTunes Store, que recentemente alcançou 10 bilhões de downloads.”Sou contra isso. O usuário deve ter habilidade de usar seu aparelho para o que ele quiser. Não entendo porque isso ocorre”, afirmou, frisando ainda que acredita no código aberto.

Também ao público da Campus Party 2011, Paulo Bernardo, Ministro das Comunicações e tuiteiro, revelou a intenção de agilizar e baratear o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga). O plano prevê a triplicação do acesso à internet em alta velocidade no Brasil até 2014, atendendo mais de 27 milhões de domicílios no país. A oferta do serviço de internet rápida às classes C e D ficaria no, no máximo, em R$ 35 mensais.

Ainda na área política, a ex-ministra do Meio Ambiente e candidata a presidente em 2010, Marina Silva, creditou durante sua palestra os quase 20 milhões de votos que recebeu no 1º turno da corrida presidencial à força dos eleitores na internet. “Talvez esse resultado não seria possível não fosse a ação de milhares de pessoas que se mobilizaram. Foram centenas de debates e a força de uma ferramenta que está apenas começando”, afirmou.

O jovem Rene Silva, 17, contou sobre sua experiência de morador do Morro do Alemão, no Rio, de onde tuitou a invasão de policiais, em novembro do ano passado. Os relatos online foram feitos via perfil @vozdacomunidade, a conta oficial do jornal “Voz da Comunidade”, publicação distribuída na região onde vive.

“Antes eu mandava e-mail para o pessoal da Prefeitura e nem recebia resposta. Na época do Natal, postei que uma rua do Complexo precisava ser asfaltada e no mesmo dia veio uma equipe iniciar os trabalhos.” No evento, Rene enumerou as conquistas após a repercussão da conta do jornal no Twitter: já ganhou computadores para a redação do jornal, tem acordo com uma gráfica para começar a imprimir o “Voz da Comunidade” em cores, sem contar que consegue, facilmente, que famosos participem dos eventos na comunidade.

Ultraconectados

Além dos palestrantes de peso, outro grande atrativo da Campus Party é tradicionalmente a conexão ultraveloz à internet. Os organizadores anunciam 10 Gbps (Gigabits por segundo), mas os participantes não conseguem baixar conteúdo com essa velocidade tão alta. Primeiro porque seus computadores, por mais poderosos que sejam, não suportam uma conexão tão veloz. Segundo porque essa banda total é dividida entre todos os participantes conectados naquele mesmo instante.

Ainda assim, a velocidade continua sendo muito rápida (e valendo o investimento daqueles que compram discos rígidos externos, de 1 terabyte, por exemplo, para armazenar todo o conteúdo baixado na Campus Party).

Para desfrutar da internet rápida no evento, o campuseiro não pode deixar de lado o cabo de rede. Isso porque o evento de tecnologia não oferece conexão Wi-Fi e esse tipo de acesso sem fio está descartado para as próximas edições. Há, no entanto, esperanças. Neste ano, a Vivo testou na Campus Party um modem com tecnologia HSPA+ que oferece banda larga móvel com velocidade quase 30 vezes superior ao 3G tradicional. Quem sabe no ano que vem?

Por JULIANA CARPANEZ

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